Manifestações estudantis e mobilidade urbana da Região Metropolitana da Grande Vitória[1]

Manifestações estudantis e mobilidade urbana da Região Metropolitana da Grande Vitória[1]

Deivison Souza Cruz

Coordenação de Estudos Sociais

 O presente texto compõem apontamentos iniciais em relação às recentes manifestações estudantis e as bandeiras de mobilidade urbana na região metropolitana do ES. Em princípio, embora se possa pensar as manifestações estudantis fatores independentes, levanta-se aqui a hipótese que a deterioração das condições de transporte público, e não apenas o aumento das passagens urbanas consiste no fator gerador de tensão social que é canalizado para a manifestação política.

A primeira seção discute os fatores políticos relacionados às manifestações estudantis e como o governo o problema não consiste nem em fato novo, nem que bloqueios de trânsito também o sejam. Na segunda seção discute-se o histórico de medidas pensadas para melhorar a mobilidade urbana na RMGV. Na terceira seção apresenta-se, descritivamente, com dados relacionados ao aumento rápido da frota de veículos nos últimos cinco anos credencia a hipótese de esgotamento do modelo de mobilidade urbana da RMGV.

A questão é como os gestores públicos podem lidar com o fenômeno político das manifestações estudantis dentro do contexto do problema da mobilidade urbana. Em função disso, na conclusão apresentam-se algumas questões sobre o papel dos governos frente aos desafios apresentados e a necessidade de soluções capazes de dar conta do ritmo de crescimento econômico da RMGV.

1. Manifestações estudantis e mobilidade urbana

Ao menos desde a década de 1980 – com a consolidação do processo de urbanização e a própria democratização, manifestações estudantis contra o aumento de passagens de ônibus fazem parte do cenário do ativismo político nas grandes cidades brasileiras assim como tem sido a disputa pelo solo urbano e a luta pela melhoria da infra-estrutura nos bairros. O que encanta os dirigentes políticos, e também os assusta, tem sido capacidade de mobilização e seu caráter anti-institucional, bem como repercussões na projeção de lideranças de massa à política.

Já em termos econômicos, as perdas decorrentes do bloqueio do transito poderiam ser grosseiramente estimadas tanto quanto demais manifestações que bloqueiam vias públicas. Avaliando o histórico de bloqueios de transito se verificaria que há uma gama maior que não é tratada com a mesma divulgação pela imprensa. Embora a população atenha-se à necessidade da Lei e da Ordem, ela interpretação convive igualmente com compreensão de que o Estado só atende em situações de mobilização de massa e bloqueio de vias públicas.

Muito além do ativismo estudantil, o histórico de manifestações com bloqueios de vias públicas no ES poderia ajudar a compreender como elas surgem e quais suas consequências. Possivelmente a prática de bloqueio de trânsito tem sido algo disseminado em diversos tipos de ativismo político. Exemplo é que a própria estruturação do trânsito, tais como a construção de passarelas, implantação de sinais de transito e construção de ciclovias decorre da constatação empírica dos atropelamentos e posterior manifestação de comunidades do que de prévia previsão técnica desses problemas por parte dos técnicos.

No caso das manifestações estudantis, a articulação nacional – envolvendo várias cidades – e a extensão de pautas de reinvidicação com baixa exequibilidade (no curto prazo) cria um impasse político de difícil solução. A questão levantada é se deve tratar o movimento a partir da pauta nacional ou ateve-se as dinâmicas que catalisam essas manifestações. Embora haja traços generalizáveis, avalia-se aqui que a compreensão do problema e de suas soluções envolvem dinâmicas sociais locais.

De início, um dos pontos de partida frequentemente usados para descredenciar o movimento estudantil relaciona-se a baixa qualificação técnica dos mesmos sobre os problemas do trânsito. Certamente isso ocorre frente a aspectos complexos relacionados à contabilidade do sistema, recursos, investimentos e soluções técnicas. Mas é a percepção empírica e cotidiana de deterioração da mobilidade urbana que credencia as manifestações, e essas é que questionam a capacidade técnica do governo frente ao desafio da mobilidade urbana.

Esse questionamento de capacidade técnica frente a percepções cotidianas de deterioração do trânsito aumenta a desconfiança, terminando por pressionar os gestores ora para medidas policiais, ora para concessões mínimas, ocorrendo, em ambos os casos, perdas de imagem pública dos dirigentes nos extratos mais jovens da sociedade. Portanto, é equivocado considerar as manifestações como um fator exógeno ao problema da mobilidade urbana.

É nesse ponto que se trata de um lugar comum – e pouco eficaz – enquadrar o problema do ponto de vista da efetividade da lei e da necessidade de ordem pública. É evidente que o Estado age nesse sentido, e isso independente de matiz ideológica dos homens de prol. As manifestações juvenis podem ser usadas como termômetro de conformidade desse extrato social com a ordem social mais ampla, e mesmo representando o posicionamento de outros grupos etários que, por estarem vinculados ao sistema produtivo, não tem disponibilidade para o ativismo político.

Os estudantes se reconhecem como grupo na condição de vitimas do Estado, isso supera a representação de uma causa justa. A presunção de “justeza da causa” e “inocência dos envolvidos” é mobilizada na tessitura social para consolidar o spirit du corps estudantil. Segue daí que a premissa dos governos é evitar vítimas que possam impulsionar o ímpeto de novas manifestações. Essa premissa foi esquecida, manchando a imagem de políticos como o ex-governador Paulo Hartung e o atual vice-governador, Givaldo Viera, ambos com passagens históricas pelo movimento estudantil.

Tais questões carecem de um micro-fundamento. A hipótese é que quanto maior o stress associado ao tempo despendido no trânsito – sobretudo daqueles que utilizam o transporte público -, maior a compreensão – por parte da sociedade – que os governantes dão pouca atenção à mobilidade. O fato de que os estudantes definam suas causas como as da sociedade – e que contem com o apoio mesmo dos estudantes com gratuidade – é sinal que as reivindicações vão além do corporativismo.

Em termos políticos, as manifestações poderiam ser reduzidas se os canais de diálogo fossem operantes. Isso significa que as instituições políticas devem ser permeáveis a juventude, bem como os movimentos e fóruns de juventude fossem mais representativos e operantes. Essa reflexão soa paradoxal, pois se pensa que é o movimento estruturado que leva ao ativismo político anti-institucional. Entretanto, é precisamente a baixa permeabilidade das instituições convencionais à juventude (partidos, fóruns e instituições) o fator que leva os estudantes a posições extremistas. É nesse contexto que lideranças ligadas a grupos da ultra-esquerdas (de diversos partidos) e anarquistas ganham proeminência.

Haverá sempre lideranças, liderados e causas sociais passíveis de mobilizar um número elevado de pessoas, o que difere é a qualidade das instituições sociais para lidar com o problema. O déficit de institucionalização política da juventude é um efeito de longo prazo da fragilidade dos mecanismos de socialização política (institucional) das novas gerações e precisa ser tratado no longo prazo com esforços conjuntos das instituições para mostrarem-se permeáveis a esse extrato etário. Se assim o for, mais raras serão medidas policiais frente ao ativismo político.

Embora se possa naturalizar a criatividade e radicalidade do ativismo político juvenil, essa naturalização só procede se for naturalizado o nível de permeabilidade das instituições à essa mesma juventude. Em outras palavras, manifestações tendem a adquirir caráter massivo e explosivo quando as instituições tradicionais – escola, partidos e fóruns de governo são frágeis para cumprir o papel de socialização política dos jovens. Esse fator é tão importante quanto a justeza da causa em questão – que é a mobilidade urbana na RMGV.

Continue lendo o artigo no arquivo abaixo.

2. Mobilidade Urbana

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