Violência contra a mulher: a linguagem que ainda não sabemos usar

A relação é sempre ele-ela, nunca ela-ele. O protagonista é sempre o homem, que conduz os fios da relação e os corta brutalmente se necessário. O verbo na voz passiva é um indício: é ela que é violentada; raramente é ele que violenta. 

Do IHU-Online, quarta-feira, 28 de novembro de 2012.

Paolo Di Stefano, Corriere della Sera, 26nov2012.

Digamos a verdade. A (justa) ênfase dada pelos jornais, pelos canais de televisão e pela web ao Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher, que se celebrou no dia 25, com manifestações em toda parte, não conseguiu dissipar uma vaga sensação de hipocrisia.

A mensagem era clara e muito nobre: é infame que um número enorme de mulheres, jovens ou adultas, italianas ou estrangeiras, sejam mortas, torturadas, espancadas pelos homens, muitas vezes companheiros, maridos, namorados, amantes, ex-amantes rejeitados, pais, irmãos.

“Feminicídio” é a palavra cunhada para definir um crime muito difundido que, tempos atrás, não tinha nem nome (um vocábulo tão novo que ainda hoje é sinalizado pelo Word com um sublinhado vermelho). Então, por que hipocrisia?

Porque, passado o dia 25 de novembro, a cultura e as palavras que expressam as violências perpetradas pelos homens contra as mulheres permanecerão as mesmas de sempre. O homicídio de uma bela moça (o fio vermelho Chiara Poggi, Sarah Scazzi, Yara Gambirasio, Melania Rea…) acaba ativando uma curiosidade mórbida, para dizer o mínimo: é melhor se da vítima são encontradas imagens sedutoras, percursos “nebulosos”, comportamentos socialmente não “irrepreensíveis”.

Tornam-se casos de uma alta taxa de noticiabilidade, repletos de particulares “suculentos” que são considerados não indispensáveis para outros crimes comuns. As motivações sexuais às quais são relacionados e que certamente existem se colorem com inúmeras conotações tagareladas ao leitor com uma satisfação mal disfarçada.

Digamos a verdade. Mesmo quando cresce a indignação, o relato e as palavras são sempre as mesmas: no clichê da mulher-objeto, quase passivo da violência, a ênfase estética nunca falta (se desperdiça o adjetivo “bela”: um agravante ou um atenuante?).

A relação é sempre ele-ela, nunca ela-ele. O protagonista é sempre o homem, que conduz os fios da relação e os corta brutalmente se necessário. O verbo na voz passiva é um indício: é ela que é violentada; raramente é ele que violenta.

Digamos a verdade. O homem continua sendo chefe também nas nossas palavras. Quanto peso teriam tido as tragédias de Chiara, Sarah, Yara, Melania se as vítimas se chamassem Pedro, Marcos, Mario, João? Iríamos nos delongar tanto sobre as suas roupas íntimas?

O feminicídio, infelizmente (infelizmente), para as regras do jornalismo, é o equivalente do cão que morde o homem (ou a mulher), mas é tratado como se fosse a exceção, o homem (ou a mulher) que morde o cão. Dir-se-á: melhor assim, a ênfase contribui para aumentar a sensibilidade da opinião pública. Muito bem. Mas não é exatamente essa a intenção, digamos a verdade.

Não se trata, de fato, de reduzir o espaço dedicado a tais horrores. Trata-se, no mínimo, de mudar as palavras desgastadas que os contam e as imagens que os representam. Trata-se de subverter os estereótipos que, infelizmente, provêm de uma sociedade ainda atrasada e de uma cultura ainda profundamente machista. Cujos sintomas semióticos – digamos a verdade – emergem com ênfase nos relatos noir, mas afloram na cotidianidade da comunicação generalizada, rosa ou branca que seja. E, talvez, para superar a hipocrisia, seria útil começar daí.

Tradução: Moisés Sbardelotto.

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