Ouvi Falar

Vale mergulhar nas reflexões colocadas  na crônica “Ouvi Falar”, de Elisa Lucinda, publicada no jornal A Gazeta, e emergir para as realidades que nos desafiam.

Ouvi Falar

Fonte: A Gazeta (publicado em 6/11/2012)

Elisa Lucinda fala sobre os “cegos da luz do saber”, que se deixam levar sem decidir, nem pensar

É, moça, tenho medo de não ver… é perigoso!

Pelo que ouvi falar, posso tomar um veneno pensando que é remédio, posso ver detergente em frasco que eu penso que é medicamento para tédio. Ando num mundo que risca coisas nas ruas, e eu não vejo. Placas me anunciando perigos que eu desobedeço porque não decifro. Sei apenas que, se está escrito, deve ser certo; errado sou eu, bobo, que não decodifico o mal nem a raiz, o anúncio nem o aviso, muito menos o que ele me diz. Sigo coisas que vejo , mas nem sei. Posso até, sem saber, desobedecer a lei.

Meu filho me leu uma carta dizendo que sua madrasta queria voltar. Mas sei lá, será mesmo que ela me quer? Ou meu filho inventa essas frases pra me agradar? Meu chefe me mostrou um papel onde ele diz que ali diz que não tenho nada, nenhum dinheiro pra me assegurar. Será que é isso mesmo? Ou eu não recebo o que o trabalho me dá? O moço do ministério disse que não tenho data pra me aposentar. Será que ele é sincero? Ou sou eu que não sei contar? Ou todo esse inferno eterno de só trabalhar tem outro inferno eterno pra fazer serão sem descansar?

É, moça, quem é cego não tem escolha, quem é cego tem que ver as coisas com os olhos dos outros, do ponto de vista do outro. E, por não poder ver, por ser cego da luz do saber, não pode ser nem querer, tem é que se deixar levar. Decidir, nem pensar! Tem sempre alguém pra dizer: “Não tá vendo lá? Tá dizendo aí: é proibido passar”. Às vezes desconfio, mas obedeço, sei lá, vou eu provar que não é? Assim vou levando sem ver nada direito, e ainda tendo uma família pra guiar.

Existe, é certo, um outro mundo, um que eu deduzo, um que eu imagino, um que eu arrisco e nem tenho firma pra afirmar. Mas é o mundo que eu vejo: tem cor esse mundo, tem cara, tem feição, tem cheiro, tem calor, tem beiço, tem palavra, tem dor, tem alegria, tem mágoa, mas se botar em livro, quem sou eu pra adivinhar? O moço do cartório, quando eu ia me casar, mostrou-me um documento, perguntou se eu sabia assinar. Fiz mais que um “x”, botei meu nome desenhado lá. Riu de mim, eu vi, eu senti; Depois me deu um papel pra ler; eu fingi, eu menti, sussurrei baixo e nada, como eu fazia de pequeno pra na igreja com a bíblia rezar. Sei soletrar. Você pode até me dar em separado algumas palavras pra eu brincar, mas se juntar tudo numa folha, fico tonto, pra mim não dá.

É muita coisa pra encaixar! Se o que vejo pode estar escrito não sei como relacionar, uma coisa é outra coisa, e outra coisa é uma coisa, sem eu poder provar. Sou cego, moça, e por isso não gosto daquele pano verde e amarelo, daquela cortina esticada nas ocasiões que têm até banda militar. Tenho ódio dela, moça, tripudia de mim aquela, metida que só ela! Grandes coisas! Hum… Bandeira Nacional, e daí, se eu não sei o que está escrito nela?

É, moça, é, professora, eu sei lá se sou brasileiro… Você vai me olhar e dizer: “Não sabe se é brasileiro? O senhor tá falando sério? Ah, não acredito, duvido!” Eu vou responder: Se sou, eu nunca vi escrito isso. Não sei ler. Sou cego da luz do saber e do escrever. Sou analfabeto, moça, isso é fácil de perceber. Sou daqui, nasci aqui e assim está decidido. Posso até ser brasileiro, mas, por enquanto, sou brasileiro de ouvido.
P.S: texto que me foi encomendado por Cristóvão Buarque.

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