SEREMOS, NO FUTURO, CIBORGUES? Para além de nossas deficiências humanas

Por Jorge Márcio – Do Blog InfoAtivo.DefNet

IMAGEM PUBLICADA – a fotografia de Neil Harbisson, a primeira pessoa a ser reconhecida como ciborgue por um governo depois de implantar uma câmera no olho. Ele participa de um projeto chamado “Eyeborg”, e tendo nascido com uma deficiência que lhe impedia de ver as cores, após ter um chip implantado em seu cérebro passou a ‘’escutá-las’’. Ele é mais um que nos indica um possível, quase iminente, futuro: o corpo humano será composto por diferentes “peças de reposição”, ou seja teremos a mais profunda, revolucionária e científica comprovação do quando desejamos nos tornar ‘’máquinas desejantes’’…, porém nunca deveremos, ou deveríamos nos tornar, nem um pouco, os ‘’exterminadores’’ do Futuro.

 

O corpo humano já foi desde as chamadas cirurgias da ‘’pedra’’ levado a muitas ‘’inclusões’’ de matérias primas que não o compõem em sua essência naturalizada. A notícia de um ciborque, embora não seja o primeiro como diz a matéria, me lembrou de um seriado de TV dos anos 60: o homem de seis milhões de dólares. Em sua reconstrução, como no Robocop muito dinheiro foi necessário…

E, por falar em milhões, tivemos recentemente a notícia da autorização de crédito para que as pessoas com deficiência pudessem ter acesso a tecnologias Assistivas. Como parte do Viver sem Limites o Governo Federal publicou uma Portaria que: “Dispõe sobre o limite de renda mensal para enquadramento como beneficiário do financiamento para a aquisição, por pessoa física, de bens e serviços de tecnologia assistiva destinados às pessoas com deficiência e sobre o rol de bens e serviços passíveis de financiamento com crédito subvencionado para tal finalidade”. (* indico link no fim do texto)

São essas as Tecnologias que, como já disse devem ser de acesso universal, são definidas, oficialmente, como: “Tecnologia Assistiva é uma área do conhecimento, de característica interdisciplinar, que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivam promover a funcionalidade, relacionada à atividade e participação de pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida, visando sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social”

Qual será então a mudança que virá com estas tecnologias sendo subsidiadas? Inclusão social? Desejo, firmemente, a não exclusão dos que possuirão, ou já possuem, mais um aparato ou aparência diferenciada. Seja uma cadeira de rodas eletrônica ou um hiper implante coclear. Espero que não se tornem pelo ‘’valor incluso com dinheiro público’’ motivo de preconceito e segregação.

Muitas pessoas tem um estranho olhar para alguma coisa eletrônica colada, inserida ou exposta como na cabeça de Neil? Tenho certeza de que muitos olharam esse homem apenas como ciborgue. Mesmo na Campus Party. Alguns de nós estereotipam Ets em qualquer Outro com uma diferença visível. Não, dirão outras pessoas, ele apenas teve a oportunidade de receber uma complexa rede tecnológica que o equiparou a todos nós. Ele enxerga escutando as cores.

Assim também há muitos e muitas que estão agora escutando este texto graças aos sintetizadores de voz. São pessoas cegas que compartilham com pessoas surdas implantadas o que há de mais avançado no campo das reprogramações do corpo humano. Apenas escutam. Há um olhar ou um escutar biônico entre eles? Há é muitas resistências e muitos preconceitos ainda para superarmos nessas conquistas científicas e biotecnológicas.

Por ser parte de uma revolução, que não veio com a Primavera, mas que silenciosamente se faz todos os dias, ainda causam desde temores até euforias. Temos é que discernir a sua real implicação com a mudança de qualidade de vida de quaisquer dos cidadãos ou cidadãs do Mundo Globalizado. Não devem ser tomados como o futuro já realizado. Muitas outras inovações estão em gestação…

O que gostaria de lembrar é que o acesso às conquistas tecnológicas deve ser contrabalançado com as conquistas em direitos humanos. Temos de disponibilizar o olho interno de Neil para quaisquer dos que dele necessitem. Nesse sentido é que indaguei há muitos anos atrás: Tecnologia assistiva para o acesso universal ou acesso universal às tecnologias?

Completo, hoje, que devemos nos ocupar da construção de um olhar e de uma reflexão ativa sobre as questões bioéticas e biopolíticas que surgem junto com estas inovações. Temos o dever de buscar entender as transversalidades dos “Homo Creator’’ com o ‘’Homo Ludens’’, que são as atuais fases conflitantes do velho ‘’homo sapiens’’. Ainda estamos produzindo e excluindo milhares de Homo Sacer. Ainda temos de estancar a eliminação do que chamamos de ‘vidas nuas’…

Ou seja temos de superar o temor que um olho biônico, um braço mecânico, uma mandíbula feita em impressora, um coração ‘’artificial’’, ou até mesmo um novo ‘’cérebro maquinal’’, possam trazer. Apenas não podemos ressuscitar o desejo da perfeição nazista de um Dr. Mengele, ou ficcionalmente dos Drs. Frankstein que persistem nas conquistas científicas.

Por isso apesar da velocidade física, semelhante e equiparadora, de um Pistorius, conhecido como “Blade Runner”, por não ter as duas pernas e usar próteses finas feitas de fibra de carbono, temos também o filme que nos avisa sobre nossos futuros replicantes. Não podemos nos inebriar na velocidade da hiper-informação sobre as invenções que nos tornem ‘’menos deficientes’’.

Somos ainda, para além desse futuro onde não haverá incapacidade ou deficiência insuperável, essencialmente humanos. Mesmo que sejamos transformados em ‘’trans-humanos’’. O que nos trarão, revolucionariamente, as nanotecnologias, as engenharias genéticas ou as biotecnologias de ponta, no atual cenário sócio-político e econômico, não nos garantem um futuro mais justo, mais ético e mais humanitário.

A distribuição de um direito de acesso às tecnologias e serviços que possam mudar a vida de um sujeito com deficiência são, nesse sentido, uma prerrogativa ética e não uma concessão estatal ou macropolitica.

Nossos sujeitos com deficiência ainda atravessam um momento histórico bem distante do que foi feito para Neil ou para a mulher de 83 anos, que teve uma mandíbula produzida pelo Biomedical Research Institute da Hasselt University, na Bélgica.

Ainda temos milhares de jovens ou crianças ou velhos com deficiências em ‘’antigas’’ e inadequadas cadeiras de rodas. Ainda temos milhares de barreiras arquitetônicas a demolir, mais ainda as barreiras atitudinais que levam a alguns empresários desejarem, espertamente, modificar o direito à Lei de Cotas. Dizem que querem uma ‘’flexibilização’’. No meu entendimento estão é mantendo as distâncias, negando os avanços e cortando custos.

O que faz com que alguns ainda não reconheçam o que o futuro nos reserva? Todos e todas poderão, como eu, um dia ainda precisar do TITÂNIO, ou de uma troca de ‘’sobressalentes’’? Sei que teria muitos outros desdobramentos em minha vida e corpo acaso uma impressora tivesse sido possível para uma cópia, ideal e utópica, de toda a minha coluna vertebral…

Como você, ou melhor, todos nós, nos sentiríamos ao ter, como Neil, ou o cineasta canadense, implantados um ‘’eyeborg’’ no lugar de seu olho original, carnal e humano? Tornar-nos-íamos mais humanos, mais sensíveis, mais tolerantes, mais criativos, mais afetuosos, mais felizes, ou apenas poderíamos nos tornar mais mortais, no seu duplo sentido?

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