Sugerimos texto a seguir: DA “LIXEIRA-VISÃO” A UMA TELEVISÃO DE QUALIDADE

DA “LIXEIRA-VISÃO” A UMA TELEVISÃO DE QUALIDADE – por Padre Xavier

Quero manifestar a minha solidariedade à Iriny Lopes, ministra da Secretaria Nacional de Políticas Públicas para as Mulheres, alvo de duras críticas pelos seus corajosos posicionamentos contra a utilização vilipendiosa pelos meios de comunicação do corpo da mulher como mero objeto. Esclareço que não conheço o anúncio publicitário estrelado pela modelo Gisele Bündchen para uma marca de lingerie e as cenas da novela “Fina Estampa”, mas não posso deixar de fazer algumas considerações.

Em primeiro lugar, fico indignado contra a maneira tendenciosa com que foi divulgado o posicionamento da Ministra. Percebe-se ainda uma vez a tática perversa de acabar com a opinião divergente apresentando-a de maneira distorcida. Pior ainda é constatar que no lugar de por em debate o assunto, aproveita-se da situação para agredir e desqualificar Iriny. Desvia-se a atenção do assunto para ataques pessoais. Isso é muito perverso, sobretudo quando por baixo identificam-se interesses políticos e eleitoreiros. Até aqueles que insurgem contra Iriny em nome da bandeira contra a censura e do direito à liberdade de expressão, eles mesmos sonegam esse sagrado direito e censuram a opinião da Ministra ridicularizando-a.

A Imprensa livre, um bem raríssimo de se encontrar, é aquela que exprime livremente sua opinião, mas que, ao mesmo tempo, se dispõe a escutar e valorizar a opinião livre dos outros. Conheço pessoalmente a Iriny e atesto seu compromisso em defesa da vida e da dignidade humana. Sei o que ela é capaz de fazer para que o ser humano, sobretudo o mais pobre e injustiçado, possa ter seus direitos reconhecidos. Admiro sua coragem de correr o risco do linchamento público para defender a dignidade da mulher.

Essa ousadia faz jus à sua história e sua militância. Na realidade, independentemente da procedência das observações da Secretaria em relação aos programas citados, a ministra coloca em pauta um debate extremamente importante a respeito da programação televisiva. A diferença daquilo que foi divulgado na imprensa, uma boa parcela do povo na rua, devidamente esclarecida, concorda com a Iriny quanto à necessidade de fazer uma avaliação daquilo que é transmitido pela Televisão. Os pais andam preocupados. E eles estão com razão. Quando era criança, na minha casa, minha mãe exercia certo controle do uso da televisão. Quando achava que certas cenas eram inadequadas à nossa formação, trocava de canal ou até desligava o aparelho. Aproveitávamos daqueles momentos de “silêncio televisivo” para brincar de bingo ou para manter a conversa em dia. Hoje esse controle por parte dos pais não acontece porque eles passam boa parte do tempo fora de casa enquanto os filhos ficam totalmente a mercê da televisão ou de outros meios de comunicação. Não estou colocando em dúvida a importância da televisão na sociedade nem quero criminalizá-la. Ela, além de informar e formar, oferece boas oportunidade de descontração. Mas parte de sua programação deixa a desejar. A necessidade de aumentar o ibope está baixando o nível da programação, dando espaço a programas que incentivam a erotização infantil, a banalização do sexo, a exposição vilipendiosa, a criminalização sem o devido processo legal, a vulgarização da mulher, a espetacularização da violência, a exposição ao ridículo de pessoas com orientação homoafetiva, a desintegração da família e a destruição dos valores morais da sociedade. É necessário dar um basta a tudo isso, também porque uma recente pesquisa realizada pela Universidade de IOWA (EUA) sob a coordenação do professor Brad Bushman, revelou que violência e sexo, além de vulgarizar a programação televisiva, não servem nem para vender. Segundo Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo, a pesquisa acima citada tem demonstrado que “as propagandas veiculadas em programas sem sexo e sem violência, o que chamamos de ‘neutros’, têm mais ‘recall’ do que os exibidos no intervalo de filmes e seriados com esses elementos”. Em outras palavras, as cenas de violência e de sexo explícito podem até ter mais audiência, mas não ajudam a aumentar as vendas.

A pesquisa, de fato, constatou que telespectadores dos programas neutros se lembram 67% mais dos comerciais exibidos durante a programação do que aqueles que vêem programas com conteúdo violento e sexual. A mesma sondagem feita 24 horas depois concluiu que telespectadores de programas neutros se recordam 60% mais do que os outros. “Conclusão: violência e sexo certamente têm mais audiência, mas não vendem. Trata-se de um recurso antiético e comercialmente incompetente”. Não se trata, portanto, de impor a censura. O exercício da liberdade de expressão é sempre bem-vindo, mas esse sagrado direito não autoriza ninguém a jogar lixo através da tela e arrotar besteira na cara do telespectador. O que se deseja é uma discussão aberta e serena que possa contribuir positivamente para melhor a qualidade ética da TV. Nada de boicotar a televisão. Sugerimos que se boicote o lixo televisivo e as empresas que o financiam. “Podemos continuar a ver televisão, mas não sejamos teledependentes. E, sobretudo, cobremos qualidade. A programação piora quando o exercício da cidadania encolhe.

A TV não mudará com anacrônicos apelos ao retorno da censura nem com o pessimismo amargo dos moralistas de sempre. Melhorará, sim, com a crítica racional, fundamentada e bem-intencionada dos que estão de bem com a vida” (Carlos Alberto Di Franco)

Obrigado à Ministra Iriny Lopes por ter puxado essa conversa.

Padre Saverio Paolillo (Pe. Xavier) Missionário Comboniano Pastoral do Menor e Pastoral Carcerária da Arquidiocese de Vitória do espírito Santo Rede AICA – Atendimento Integrado à Criança e ao Adolescente.

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